O que falar de um cara que ofereceu seu rim para o meu pai? Pacheco Maia, Irmão Jota, por Emmerson José
José Pacheco Maia Filho nos deixou nesta sexta e enlutou a imprensa baiana. É uma ousadia escrever sobre um dos maiores gênios que conheci no jornalismo, mas vou tentar
COLUNISTANOTÍCIAS
9/19/20263 min read


Quando eu peruava rádio, ainda trabalhava em banco em 1985, tive o meu primeiro contato com Jota Júnior. Putz. Era fã daquele monstro, que mandava ver na locução da pop rock Transamérica FM de Salvador. Foi um estalo de amizade. Jota fazia o horário de 18h às 22h (que depois assumi) e a gente ficava resenhando no intervalo de A Voz do Brasil sobre tudo do rock e de rádio. Ele acompanhou e fortaleceu toda a minha trajetória para realizar o meu sonho de ser um locutor. Lembro, inclusive, que ele chorou ao saber que dormi em um banco de rodoviária em Itabuna, para correr atrás de um registro de radialista. Jotinha nunca esqueceu isso.
Numa daquelas noites de Transamérica, ele me perguntou: quando é seu aniversário? – 3 de maio, Jota. Ele olhou pra mim e largou essa: - Três, Emmerson. Você é um predestinado. Santíssima Trindade, Três Marias e Três Dimensões. Esse era o Jotinha. Mal sabia ele e eu que 3 de maio também era Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Dia do Parlamentar e Dia do nascimento do grande pensador Maquiavel. Se ele soubesse naquela época, seria resenha demais para apenas uma hora de Voz do Brasil, ‘o programa mais pontinhos que você já ouviu’. Era assim que ele anunciava o enfadonho horário de 19h às 20h.
Jota tinha naquela época um gol azul, bem ‘famoso’ nas ruas da nossa capital. Sabendo da minha vontade em virar um locutor de rádio (e de uma rádio rock), ele me pegava às 5h30 da manhã todos os domingos para que eu pudesse operar para ele lá na Federação (Rua Pedro Gama, endereço da Transamérica), enquanto ele dava uma ‘descansada’ da noite. Desculpa, Lula Tavares (coordenador na época da rádio e que também confiou no meu potencial). Aliás, agradecimentos também a Hage, Ronaldinho, Jeferson Bastos e toda equipe que confiou aqui no calouro.
A vida seguiu e nós nos tornamos grandes irmãos no radiojornalismo e na vida pessoal. Como se esquecer do famoso caruru da sua linda mãe, que virou tradicional na região do Canela? Como esquecer que o levei para ser o meu chefe de Assessoria de Imprensa na Câmara de Vereadores de Salvador, quando fui presidente? Como esquecer a idolatria que ele tinha (e conhecia a fundo a história) por Raul Seixas, Marcelo Nova (entrevistei na Band FM graças a ele) e ao rádio? O rádio...
Rádio na alma e nos cômodos
Nunca conheci ninguém tão amante do rádio. Nunca! Nestes últimos meses em que esse grande irmão enfrentava uma doença terrível, estive várias vezes com ele em sua casa e no hospital. E eram os rádios (de pilha mesmo) que chamavam a atenção. Em sua casa e da sua querida esposa Thea, a média era de dois rádios por cômodo. E ele tinha o maior prazer de ligar os aparelhos e falar comigo: - Ouça, mineirinho,( pra não dizer como ele chamava os amigos íntimos), isso que é um som. ‘Irmão, olha aí, me mandando vídeo, estou ouvindo em ondas curtas a Itatiaia e a Inconfidência aqui’. Isso era zap às 2h da manhã. Nossa amizade nunca teve hora. Nunca.
Confesso, leitores, que guardei muita coisa sobre o que estava vivendo o meu irmão Jota nos últimos meses. Nossas conversas caminhando no play do prédio dele sobre nossas vidas, Thea (maravilhosa esposa dele) nos servindo um café e gargalhando com nossas histórias, nós dois em pleno Hospital da Bahia assistindo episódios de ‘O Homem de Seis Milhões de Dólares’ – afinal, éramos fãs das séries antigas – e , mais do que tudo isso, mirando o futuro dele, que tínhamos a esperança de ser maravilhoso. Afinal, nascemos no mesmo ano (1965) e esse ‘cara’, quando soube da situação do meu ídolo e pai (ele adorava dizer que eu era um grande filho e também pai), ofereceu o seu rim, gente, para o seu Zé. Vão se encontrar agora ao lado do Senhor. Fica com Deus, irmão. Saiba que Thea, suas filhas e seus irmãos terão um apoio aqui neste terreno em que você deixou.
Emmerson José – Editor-Chefe do site A Bahia Fala
Imagem: Divulgação
*Pacheco (Jota) escreveu vários artigos durante este período difícil para o site A Bahia Fala, o que foi uma honra para mim. Tenho alguns guardados, mas só vou publicar, caso a família autorize. Replico abaixo alguns deles já publicados:
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