Jorge Guimarães: a eterna simpatia no ar, por Pacheco Maia Filho

Corpulento, 1,90, cabeludo, Jorjão não perdia Big Boy anunciar a abertura de seus programas com o inesquecível “Hello, Crazy People”, na lendária Rádio Mundial, no Rio de Janeiro

COLUNISTANOTÍCIAS

9/6/20266 min read

Jorge Guimarães não rima com lágrimas. Quem estampa um sorriso tão cativante como nesta foto que Eduardo Ferraz acaba de me mandar da Polônia rima com gargalhada , riso, simpatia.

Não foram poucos os momentos maravilhosos que tive a graça de passar ao lado deste carioca da gema, torcedor do Flamengo, filho de português, que não era da zona sul, mas da zona norte assim como seu ídolo Big Boy.

Corpulento, 1,90, cabeludo, Jorjão não perdia Big Boy anunciar a abertura de seus programas com o inesquecível “Hello, Crazy People”, na lendária Rádio Mundial, no Rio de Janeiro, nos anos 1970.

O som black que Big Boy apresentaria ao Brasil seria a química da “disco-music”, paixão eterna de JG, que ele compartilhava com outro amado amigo, Walter Marcos.

Foi Walter quem confirmou a triste notícia na manhã deste domingo, véspera da Data da independência deste País moribundo. Nem ele tampouco Jorge continuavam morando no Brasil.

Grandes talentos do rádio, onde os conheci, partiram de Pindorama há décadas. Diversificaram de atividades, embora o rádio tenha aberto as portas internacionais para eles.

Jorge estava na California, nos EUA. Walter em Portugal. Não posso deixar de dar o crédito de quem conseguiu a foto: Eduardo Ferraz, outro incomensurável talento, que catou esta imagem feita por Rodelval Barbosa, outro amigo, que conheci na Rádio Transamérica FM.

É impossível lembrar de meu amigo Jorge Guimarães e não falar do importante capítulo da Rádio Transamérica da Bahia FM - 100,1 MHz na história da radiodifusão da Bahia.

Não conheci Jorge na Transamérica. Foi na Rádio Piatã FM, no início de 1985. E tem um “causo” curioso e engraçado que aconteceu lá, que expõe bem o lado divertido que ele levava a vida e eu também.

Era uma noite de sábado. Das nove à uma da madrugada, ia ao ar o “Danceteria Piatã”, um programa de mixagens que Jorge apresentava com Walter, seu fiel escudeiro, e encerrava a programação da rádio.

Eu entregara a emissora e voltaria para botá-la no ar novamente às seis da manhã. Bem..não foi bem assim. Eu saí aquela noite com “uma garota do Barbalho”. Cheguei aquela madrugada já perto de ir para a rádio. Sem a mínima condição de colocá-la no ar.

Precisava dar uma cochilada para pelo menos repor as energias. “A garota era do Barbalho”. Meu amado pai atendeu ao meu pedido de me chamar às seis da matina. Eu acreditava que este era o horário de o ex-deputado Cristóvão Ferreira ligar o receptor para ouvir sua emissora de rádio.

Ledo engano. Antes das seis, o telefone lá de casa tocou e meu pai me chamou na cama, dizendo que o dono da rádio queria falar comigo. Acho que nem ele entendeu direito aquela inusitada chamada telefônica.

Esbaforido, levantei-me apressadamente, corri pro telefone: “Tudo bem, Dr. Cristóvão, aconteceu um imprevisto. Estou a caminho da rádio”. Peguei a chave do carro e me piquei. Ainda com os olhos cheios de remelas, nem entendi direito o que acontecera no estúdio.

“Cadê o microfone?” O coroa estava fulo: “Vejaí o que os capadócios de seus colegas fizeram. Querem me arruinar?”. Comecei a compreender a brincadeira ao ler a charada que deixaram no quadro que havia no estúdio.

“Jota Júnior, na hora do aperto, o forte e o fraco se encontram no mesmo lugar”. Eureka! O microfone estava no banheiro. Peguei o equipamento e o instalei.

Arrumei a programação musical, feita pelo Lula Tavares, coordenador da emissora. Ele foi quem me admitiu na Piatã e me batizou de “Jota Júnior”. Outro amigo que voltaria a trabalhar com Jorge na inesquecível Transamérica.

Coloquei a Piatã FM em condições de trabalho. Entreguei ao locutor Geraldo José às 10 para ele fazer o programa preferido de Dr. Cristóvão: “Roda de Samba”. Geralmente ele acompanhava de casa, mas, dessa vez, fez de questão de assisti-lo no estúdio.

Aguardaria JG entrar no ar às 15 horas, seu horário naquele domingo. Eu não sei o porquê de ter voltado à rádio naquele dia. Acho que o Jorge, que fazia a função de “quebra-faca, estafeta, peru, carregador de mala” que, mesmo quando aposentado, político adora, me convocara para um breve comunicado.

Abri a porta do estúdio rapidamente e vi Jorge Guimarães, super profissional, apresentando a programação, dando as notícias e o ex-deputado sentado numa cadeira diante dele, sem lhe dirigir uma palavra. Assim depois me confirmou Jorge, o dono da Piatã ficara durante todo o horário.

No dia seguinte, numa segunda-feira, o problema se resolveu. Todos à rádio para uma reunião que não pôde ser coletiva. A minha proposta foi rechaçada automaticamente. Cada um teria comunicada individualmente sua punição.

A decisão do dono da rádio já fora tomada. Demissão sumária para Jorge. Walter era apenas um colaborador dele no programa. Para mim, me deram uma suspensão de oito dias.

Eu reagi. “Só fico se todo mundo permanecer”. Proposta rejeitada na hora. Melhor coisa que fiz. Alguns meses depois, a Transamérica me chamou para trabalhar lá. Outra história!

A Transamérica era a única rádio administrada profissionalmente. Não tinha dono político ou religioso. A concessão era do dono do grupo Real, Aloísio de Faria. Precisava apresentar resultados financeiros.

Tinha uma equipe comercial em Salvador para captar anúncios. Era arrojada na prospecção dos negócios. Em novembro de 1985, a emissora montou seu primeiro time de locutores para transmissão de sua programação ao vivo das seis às duas da madrugada.

Quem abria a emissora com toda simpatia e empolgação era Jorge Guimarães, depois às 10, Dênis Peres com seu estilo irônico e peculiar. Na sequência, a animação de Paulo Roberto, às 14.

Ao cair da tarde, entrava Jota Júnior,”aquele que você ouve mas não vê (não sei de onde eu tirei essa obviedade), fechando às 10 da noite, Eduardo Ferraz. Na programação musical: José Hage e Lula Tavares. Na técnica: Barbosa e, na operação de rádio, Cesar e Dino.

Jorge Guimarães marcou sua participação no Campeonato de Futebol dos Radialistas como o melhor goleiro de todos os tempos. Tinha pinta de Buttice, clássico goleiro argentino que passou pelo Bahia e fazia pontes incríveis. Se dependesse do arqueiro, o time da Transamérica seria imbatível, mas era ruim demais com a devida exceção.

Jorge era formidável. Foi o mais generoso coordenador que tive na Transamérica. Quando voltou para a rádio nesta função mais executiva, com o objetivo de elevar a audiência da emissora a primeiro lugar, ele montou um esquema de popularização total da programação.

Ele deixara a Transamérica a convite do radialista Ênio Roberto para trabalhar na Rádio Cidade com o fiel escudeiro Walter Marcos. Lá sob o comando de Ênio, derrubaram a liderança da Itapoan FM com o romântico chatíssimo Markinhos Moura e seu “Meu Mel”.

De olho no sucesso da concorrência, a direção da Transamérica foi atrás de Jorge que voltou à emissora. Entrou na onda “Pense em Mim”, e tome-lhe Chitãozinho e Xororó no ouvido dos baianos.

Em paralelo, umas promoções doidas de levar os ouvintes na emissora que, na época, estava um cacete armado. Ainda havia a invenção de um Gil Gomes, que eu acabei batizando, porque não cabia usar até o mesmo nome do comunicador paulista. Sugeri “Estácio Alvarenga”. Aprovado!

Redigi o noticiário da rádio durante um período até alguém peruar que eu era do sindicato para São Paulo. Enquanto esteve no comando, Jorge não deixou que suspendessem minhas horas-extras. Dava assim a dimensão de seu caráter.

O que posso falar deste sensacional cara que se despede assim repentinamente? Com quem tive uma convivência curta, mas intensa e sincera, enquanto estivemos juntos?

Só desejar muitas luzes para meu querido amigo, que, de onde estiver no céu, certamente vai continuar brilhando e me inspirando a contar outras histórias dele que ficarão para novos textos. Afinal o rádio FM na Bahia completa 50 anos no ano que vem e ele tem seu papel nesta história…

José Pacheco Maia Filho (Jota Júnior) é jornalista, radialista e colaborador do site – Imagem: Acervo/Eduardo Ferraz e Rodelval Barbosa

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