Causos do Jota: Buraquinho, por José Pacheco Maia Filho

Glauber Rocha, em ‘Barravento’, foi a inspiração de Pacheco para mais esta linha da sua história de sucesso

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8/16/20264 min read

Nos primórdios dos anos 1970, eu nem imaginava que a praia de Buraquinho servira de cenário para as filmagens de um clássico do cinema brasileiro: “Barravento”, de Glauber Rocha.

Cenas do filme foram gravadas naquele pedaço do Litoral Norte baiano em 1961. Eu nem era nascido.

Mas minha mãe dera a luz a Luiz em fevereiro daquele ano. Meus pais se casaram em 1959. Eu vim à vida em 65 e Francisco, o caçula, em 67.

Meu pai deve ter comprado o terreno em Buraquinho, em 1970/72 ou até mesmo antes.

Tenho uma lembrança muito viva de estar lá num final de tarde de sábado que dá uma referência da época.

O rádio (paixão de Pacheco) do carro estava ligado, transmitindo a partida entre a Seleção Brasileira e a Seleção Gaúcha, preparatória para a Copa de 1974.

A certeza é de que anos antes já se tornara uma rotina ir aos sábados a Buraquinho.

Geralmente era um programa matinal que poderia se estender pela tarde, como nesse sábado que lembrei.

Faziam parte também da programação das tardes da véspera do domingo, curtir o Clube Português, na Pituba.

O querido Dr. Pacheco reservava os sábados para promover a diversão dos filhos e dos amigos dos filhos. Fosse Buraquinho ou clubes sociais, ele enchia de meninos o TL.

TL era um carro da Volkswagen, estilo hatch, daquele início dos anos 1970, que tinha, assim como a Variant, um porta-mala onde se alojava também a garotada. Eram meninos, como se diria, para “sair pelo ladrão”.

Não havia fiscalização e controle de lotação nos veículos na época e nem obrigatoriedade do uso de cintos de segurança, que pareciam mais adereços do que qualquer outra coisa.

Lá vamos nós, rumo a Buraquinho!

Diziam que o nome da praia era por causa da precariedade do acesso a ela. Realmente a pista era toda esburacada.

Recordo que, quando começamos a ir para lá, não existia nem a Avenida Paralela. Estava em construção.

Meu pai seguia pela pista da orla em direção ao aeroporto e pegava a que hoje é chamada de Avenida Dorival Caymmi.

Quando chegávamos no bambuzal do aeroporto, no meio dele tinha uma entrada à esquerda.

Meu pai virava e seguia por ela. Era uma estradinha ruinzinha que dava em Lauro de Freitas.

Salvador, no início dos anos 70, não era nenhuma metrópole cosmopolita.

Mas chegar em Lauro de Freitas era um choque. Parecia que se tinha percorrido mais de 600 quilômetros a dentro no sertão.

Eta cidadezinha atrasada! Assemelhava-se mais a um povoado num rincão distante. Não! Estava ao lado da capital da Bahia.

Os poucos habitantes que circulavam nas ruas sem asfalto se surpreendiam com a presença de carros, que, pelo jeito, de “caju em caju” passavam por lá.

A turma não deixava passar batido. Das janelas do carro gritava para os minguados transeuntes: “tabaréu, tabaréu!”.

Eles não estavam nem aí. Não manifestavam nenhuma reação às provocações. Mas a gente dava gargalhadas com a molecagem.

E não eram poucas as molecagens nessas idas a Buraquinho. Principalmente nas voltas para Salvador. Tempos politicamente incorretos.

Chegando no sítio era pura diversão: futebol, praia, catar frutas, subir em coqueiro e até caçar. Naquele tempo, Buraquinho era natureza crua.

O terreno de meu pai ficava na estrada da praia. Ao fundo era só mato. Aves e bichos transitavam por lá.

Diziam que, nas redondezas, havia até onça. Exagero, claro. Mas outros tipos selvagens com certeza. A flora e a fauna eram ricas.

Me lembro que um dia meu pai chegou em casa com dois camaleões que perambulavam pelo sítio. Ele os soltou na Praça da Piedade para se juntarem aos demais que existiam lá.

Embora fosse médico e também farmacêutico, Dr. Pacheco era um homem do campo. Deixava-nos na praia e passava a manhã, capinando, plantando. Era a terapia dele.

Certo sábado chegamos lá e fomos surpreendidos com duas traves que meu pai mandou fazer para dar um ar mais oficial ao baba que jogávamos numa área do sítio.

A galera não perdeu tempo. Batizou logo o campinho: “Estádio Pachecão”, em homenagem a meu pai.

Pithonzinho, o artista da turma, produziu logo uma placa que foi fincada na entrada do sítio no sábado seguinte.

Eta, história longa! Vou encurtá-la e pegar o caminho de volta a Salvador, quando a molecagem era braba. Além do bando de meninos, o TL voltava cheio de coquinhos.

Cada um tratava de catar sua munição. O TL tinha quatro portas. Então havia três delas disponíveis para servir de base de arremesso. A quarta era a de meu pai que seguia tranquilo, dirigindo.

Então, era chegar na Estrada do Coco para a artilharia de coquinhos entrar em ação. Azar de quem transitasse pela pista. Não era muita gente.

Mas sempre aparecia alguém pedalando sua Monark Barra Circular para servir de alvo. E não tinha jeito. Diante do fuzilamento, perdia o equilíbrio.

A molecagem se estendia pela orla. No final de tarde, quando passávamos pelo Aeroclube, a oferta de alvos era grande.

Lá ficavam vários pescadores oferecendo lagostas a quem passasse de carro. Era o momento de testar a mira. Não faltavam coquinhos sendo rumados na direção deles.

Inesquecível o dia em que um deles, depois da saraivada de coquinhos que recebeu, reagiu baixando a sunga e mostrando os balangandãs.

Pois o sacana ainda foi atingido por outra remessa para tomar vergonha na cara…kkkkkkk

José Pacheco Maia Filho (Jota Júnior) é jornalista, radialista e colaborador do site

Imagem: A Bahia Fala – Criada por IA

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