Semana decisiva no Congresso para a votação do fim da escala 6x1
Turismo, comércio e serviços aumentam a pressão em campanha contra a votação da PEC, que deve ocorrer na próxima quarta-feira. Fecomércio BA, FAEB, Fetrabase e FIEB reúnem a imprensa hoje para tratar do tema
COLUNISTANOTÍCIAS
8/31/20265 min read


O debate sobre a jornada de trabalho precisa ir além do discurso fácil de “trabalhar menos e ganhar igual” e considerar os efeitos sobre empregos, preços e serviços essenciais.
É difícil encontrar um trabalhador que seja contra a ideia de ter mais tempo livre, mais descanso e, ao mesmo tempo, manter o mesmo salário. A resposta provavelmente seria unânime: quem não gostaria de trabalhar menos e continuar recebendo o mesmo?
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer comemoração: quem vai pagar essa conta?
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força no Brasil e vem sendo tratado, em muitos momentos, de maneira simplificada. O discurso de que o trabalhador merece descansar mais é sedutor, legítimo e politicamente poderoso. O problema é que uma mudança dessa magnitude não termina na relação entre empregado e patrão. Ela alcança empresas, consumidores, prefeituras, condomínios, hospitais, restaurantes, supermercados, comércio, transporte e praticamente toda a cadeia de serviços.
Não existe jantar de graça
Se um funcionário passa a trabalhar menos dias, mas a empresa precisa manter o mesmo funcionamento, alguém terá de ocupar as horas que ficaram descobertas. Isso pode significar contratação de novos trabalhadores, pagamento de horas extras, reorganização de equipes ou aumento dos custos operacionais. O consumidor final dos produtos destas empresas vai pagar a conta, que em determinadas atividades, será mais alta ainda.
No setor de serviços, por exemplo, a mão de obra representa uma parcela expressiva dos custos das empresas. Se a redução da jornada obrigar a contratação de mais pessoas para manter o mesmo nível de funcionamento, o impacto pode ser significativo principalmente para pequenos negócios, que possuem margens muito menores do que grandes empresas.
E surge outro problema: onde está a mão de obra disponível para preencher essas vagas?
Imagine um grande restaurante precisando contratar uma nova cozinheira para cobrir a redução da jornada de sua equipe. Ele provavelmente disputará essa profissional com outros estabelecimentos. O restaurante maior poderá oferecer melhores condições e salários, atraindo trabalhadores de pequenos bares e restaurantes que já enfrentam dificuldades para contratar.
O resultado pode ser uma concentração ainda maior de mão de obra nas empresas de maior porte, enquanto pequenos negócios terão de escolher entre aumentar salários, elevar preços, reduzir funcionamento ou simplesmente fechar as portas.
E os serviços essenciais?
O debate fica ainda mais complexo quando saímos do ambiente das empresas privadas e olhamos para serviços que não podem simplesmente parar.
Hospitais, clínicas, farmácias, limpeza urbana, segurança, transporte, aeroportos e outros serviços essenciais precisam funcionar continuamente.
Como ficará uma emergência hospitalar se a equipe precisar ser ampliada para compensar a redução da jornada?
Como uma prefeitura, especialmente uma de pequeno porte, absorverá o aumento da despesa com trabalhadores terceirizados responsáveis pela limpeza urbana? Segundo especialistas, o impacto no orçamento das prefeituras será de ao menos 20%. Terão caixa para isso ou levarão para o IPTU a conta?
Quem pagará a conta de mais porteiros, profissionais de limpeza e segurança nos condomínios?
A resposta parece simples: alguém terá de pagar. E, em algum momento, essa conta chegará ao orçamento público, ao consumidor ou ao próprio trabalhador por meio da redução das oportunidades de emprego.
Nos condomínios, por exemplo, a mudança pode ser imediata. Se um porteiro deixa de trabalhar determinados dias, outro profissional precisará assumir aquele período. O mesmo vale para segurança e limpeza. Síndicos já avaliam que situações desse tipo poderiam pressionar significativamente as despesas condominiais.
E não se trata apenas de uma questão empresarial. Um supermercado precisa abrir. Uma farmácia precisa funcionar. Um restaurante precisa atender seus clientes. Um aeroporto precisa operar. Um hospital precisa manter suas equipes. Quem trabalhará nos dias em que o funcionário estiver de folga?
A conta pode aparecer no preço
Existe ainda uma consequência que costuma aparecer pouco no debate: o aumento dos preços.
Se uma empresa precisa contratar mais trabalhadores para manter a mesma operação, seu custo aumenta. Se não consegue absorver esse aumento, existem poucas alternativas: reduzir margem de lucro, diminuir investimentos, cortar postos de trabalho, aumentar preços, buscar formas diferentes de contratação, como PJ por exemplo, ou mesmo fechar as portas. Em um cenário de forte pressão sobre os custos, o consumidor pode acabar pagando parte dessa conta.
E o impacto não será necessariamente igual para todos. Uma grande empresa pode ter condições financeiras para absorver temporariamente uma despesa maior. Para um pequeno restaurante, uma loja de bairro ou um pequeno prestador de serviços, entretanto, alguns pontos percentuais a mais podem significar a diferença entre continuar funcionando ou encerrar as atividades.
Há ainda um risco que não pode ser ignorado: quanto maior o custo e a rigidez para contratar formalmente, maior pode ser o incentivo para algumas empresas recorrerem à informalidade ou a modelos de contratação alternativos.
Ou seja, uma medida criada para proteger o trabalhador pode, dependendo de como for implementada, produzir efeitos contrários para uma parcela deles.
E os empregos?
Outro ponto que precisa entrar nessa discussão é o possível impacto sobre o mercado de trabalho.
Estimativas citadas no debate apontam para a possibilidade de perda de dezenas de milhares de postos no comércio, chegando a cerca de 165 mil empregos, dependendo do cenário considerado.
É um número que precisa ser analisado com cautela e acompanhado de estudos econômicos sólidos. Mas a pergunta continua sendo absolutamente válida: uma mudança obrigatória na jornada aumentará o emprego ou poderá fazer algumas empresas contratar menos? Essa resposta não pode ser dada apenas com slogans.
O comércio e o setor de serviços dependem diretamente da disponibilidade de trabalhadores e da capacidade financeira das empresas de manter suas operações. Se o custo da mão de obra subir de maneira significativa, é possível que alguns empresários optem por automatizar processos, reduzir horários, diminuir equipes ou simplesmente não abrir novas vagas.
Negociações diferentes
Uma coisa é o trabalhador e o empregador negociarem as condições de trabalho levando em consideração as características de cada atividade. Outra, completamente diferente, é estabelecer uma regra geral que atinja setores com realidades absolutamente distintas.
O funcionamento de um hospital não é igual ao de um escritório. Uma padaria não funciona como uma repartição pública. Um restaurante não tem a mesma dinâmica de uma indústria. Um condomínio não pode ser comparado a uma empresa de tecnologia.
O trabalhador merece condições dignas, descanso adequado e remuneração justa
A discussão sobre qualidade de vida, descanso e produtividade é necessária e legítima. O trabalhador merece condições dignas, descanso adequado e remuneração justa. Mas também é preciso reconhecer que empresas precisam sobreviver, gerar empregos e oferecer produtos e serviços.
Talvez o caminho mais responsável seja buscar soluções que considerem as particularidades de cada setor, com negociação entre trabalhadores e empregadores, em vez de simplesmente transferir para o Estado a decisão sobre uma realidade que ele nem sempre conhece de perto. Quem está dentro da empresa sabe onde o calo aperta.
E, quando uma mudança é imposta de cima para baixo, sem considerar as diferenças entre atividades, tamanhos de empresas e regiões do país, existe sempre o risco de que a conta apareça justamente onde ninguém gostaria: no emprego, no preço dos produtos e na prestação dos serviços.
A discussão sobre a escala 6x1, portanto, precisa ser muito maior do que a pergunta aparentemente simples — “quem não quer trabalhar menos?”
A pergunta realmente importante é outra: como trabalhar menos sem destruir empregos, encarecer serviços, sufocar pequenos negócios e comprometer aquilo que precisa continuar funcionando todos os dias?
É essa a resposta que o Brasil ainda precisa encontrar.
Redação A Bahia Fala – Imagem: A Bahia Fala/criada por IA
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