Quem está escolhendo por você? Coluna de Carlos Alberto Braga
Entre algoritmos, polarização, corrupção e desconfiança, a eleição começa muito antes de chegarmos à urna
COLUNISTANOTÍCIAS
10/3/20266 min read


Entre algoritmos, polarização, corrupção e desconfiança, a eleição começa muito antes de chegarmos à urna.
Nesta semana, milhões de brasileiros estarão novamente diante dela. Serão poucos minutos para uma decisão cujas consequências poderão durar anos.
Em períodos eleitorais, somos bombardeados por pesquisas, denúncias, promessas, vídeos, discursos, cortes de entrevistas, acusações e versões contraditórias dos mesmos acontecimentos. Em meio a tamanho ruído, talvez a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas algo anterior:
Quem está escolhendo por você?
A democracia concede ao cidadão o direito de participar da definição dos rumos do país. Mas todo direito dessa natureza carrega uma responsabilidade correspondente: informar-se, comparar, questionar, verificar e decidir.
Não basta escolher.
É preciso compreender como estamos chegando à escolha.
QUANDO O PROBLEMA ULTRAPASSA ESQUERDA E DIREITA
O debate público brasileiro frequentemente acaba reduzido a uma disputa entre esquerda e direita, governo e oposição, conservadores e progressistas.
Essas diferenças existem e fazem parte da democracia. O problema começa quando elas nos impedem de enxergar questões que deveriam preocupar qualquer cidadão, independentemente de sua preferência política.
Corrupção é uma delas.
Corrupção não deveria possuir ideologia.
Desvio de recursos públicos não se torna aceitável porque foi praticado pelo grupo com o qual simpatizamos. Abuso de poder não muda de natureza porque acreditamos nas boas intenções de quem o pratica. Mentira não se transforma em verdade quando favorece nossa preferência eleitoral.
Uma democracia começa a correr perigo quando cria duas balanças morais: uma rigorosa para os adversários e outra indulgente para os aliados.
Talvez um dos exercícios mais difíceis da cidadania seja justamente este: aplicar aos nossos preferidos os mesmos critérios que aplicamos aos nossos adversários.
QUANDO A CORRUPÇÃO DEIXA DE SURPREENDER
Existe algo talvez mais perigoso que o próprio escândalo: a habituação ao escândalo.
Quando a população começa a ouvir sobre desvios, fraudes, favorecimentos e abusos e responde apenas com um cansado “sempre foi assim”, alguma coisa importante está acontecendo.
Não apenas com a política.
Com a sociedade.
A corrupção deixa marcas que ultrapassam os valores desviados. Ela deteriora a confiança entre cidadão e instituições, alimenta o cinismo e produz uma sensação devastadora: a de que agir corretamente seria ingenuidade.
É nesse momento que surge uma das perguntas mais perigosas para qualquer sociedade:
“Ainda vale a pena ser honesto?”
Quando o cidadão começa a acreditar que não, a corrupção conquistou algo muito maior que dinheiro.
Conquistou uma parcela da consciência coletiva.
Por isso, combater a corrupção não significa apenas investigar grandes escândalos. Significa também preservar uma cultura na qual honestidade, responsabilidade, mérito, transparência e respeito às regras continuem sendo valores socialmente desejáveis.
AS INSTITUIÇÕES TAMBÉM PRECISAM SER VIGIADAS
Nenhuma democracia saudável depende da santidade de seus governantes.
Ela depende, entre outras coisas, de instituições capazes de limitar o poder, fiscalizar, investigar, corrigir irregularidades e responsabilizar quem viola as regras.
Governos podem errar.
Empresas podem errar.
Órgãos públicos podem falhar.
A imprensa pode errar.
O Judiciário pode ser questionado.
O Legislativo pode ser fiscalizado.
E o cidadão também pode se equivocar.
Questionar instituições não significa necessariamente desejar destruí-las. Muitas vezes, exigir transparência, independência e responsabilidade é justamente uma maneira de defendê-las.
Da mesma forma, reconhecer um escândalo não autoriza concluir que tudo esteja corrompido.
Precisamos aprender a sustentar duas ideias ao mesmo tempo: há problemas graves que precisam ser enfrentados; e há pessoas honestas trabalhando dentro das instituições para enfrentá-los.
Esse equilíbrio evita tanto a ingenuidade quanto o desespero.
A CORRUPÇÃO NÃO COMEÇA NOS PALÁCIOS
Também seria confortável demais imaginar que corrupção é uma doença exclusiva da classe política.
Ela se torna gigantesca quando encontra dinheiro público, influência e poder, mas sua raiz aparece muito antes.
Surge quando buscamos vantagem indevida, exigimos privilégios ou acreditamos que a regra deve valer para os outros, enquanto encontramos justificativas quando somos nós que desejamos contorná-la.
Surge quando o interesse particular passa à frente do interesse coletivo.
Uma sociedade não produz seus governantes em outro planeta.
Eles emergem da própria cultura.
Por isso, exigir políticos melhores sem refletir sobre nossos próprios padrões de comportamento resolve apenas metade do problema.
O combate à corrupção começa nas instituições, mas começa também dentro de casa, nas empresas, nas escolas e nas pequenas escolhas cotidianas.
QUEM ESTÁ FORMANDO SUA OPINIÃO?
Talvez esta seja uma das perguntas centrais da eleição contemporânea.
O eleitor não chega sozinho à urna.
Chega depois de meses sendo disputado por campanhas, redes sociais, algoritmos, televisão, jornais, influenciadores, grupos de mensagens, amigos e familiares.
Isso não significa que exista necessariamente uma grande força secreta controlando nossas escolhas.
O problema é mais simples — e talvez mais difícil de perceber.
Nós mesmos tendemos a procurar informações que confirmem aquilo em que já acreditamos.
Assistimos mais àqueles com quem concordamos. Compartilhamos mais facilmente aquilo que reforça nossas convicções. E somos muito mais rigorosos para exigir provas quando uma informação prejudica nosso lado do que quando prejudica o adversário.
É assim que uma bolha começa a parecer o mundo inteiro.
Por isso, uma consciência verdadeiramente livre precisa fazer algo desconfortável:
procurar também aquilo que desafia suas próprias certezas.
A OUTRA CORRUPÇÃO: A DA VERDADE
Carregamos no bolso uma poderosa ferramenta de influência política: o celular.
Uma acusação pode alcançar milhares de pessoas antes que alguém pergunte de onde veio.
Um vídeo retirado de contexto pode parecer uma prova.
Uma manchete pode circular sem que ninguém leia a reportagem.
Uma suspeita repetida milhares de vezes pode adquirir aparência de fato.
Antes de compartilhar, verifique.
Antes de acusar, procure a fonte.
Antes de transformar uma suspeita em certeza, pergunte o que realmente está comprovado.
Não se combate corrupção política promovendo corrupção da verdade.
Uma mentira conveniente continua sendo mentira.
NINGUÉM DEVE VOTAR POR VOCÊ
Políticos tentarão convencê-lo.
Influenciadores tentarão convencê-lo.
Jornalistas apresentarão interpretações.
Amigos e familiares defenderão suas escolhas.
Isso faz parte da vida democrática.
Ouça.
Compare.
Questione.
Mas preserve algo que não deveria ser terceirizado: sua capacidade de decidir.
Não transforme candidato em salvador.
Não permita que o medo escolha por você.
Não permita que o ódio escolha por você.
E não permita que a decepção com a política produza automaticamente indiferença.
Participar da democracia não significa acreditar cegamente em governos ou instituições. Significa compreender que o espaço abandonado pelo cidadão continuará sendo ocupado — apenas sem sua participação.
QUANDO VOCÊ ESTIVER DIANTE DA URNA
No momento da votação, todo o barulho diminuirá.
Ali não estará o apresentador de televisão.
Não estará o influenciador.
Não estará o político que enviou a mensagem.
Não estará o amigo que discutiu conosco.
Restará uma decisão pessoal.
Por isso, antes de escolher, algumas perguntas talvez sejam mais importantes que qualquer slogan: Conheço o histórico de quem está pedindo meu voto?
Procurei informações fora da minha própria bolha?
Estou utilizando a mesma medida moral para aliados e adversários?
Minha escolha nasce da reflexão ou apenas da raiva?
Estou escolhendo alguém ou simplesmente votando contra alguém?
Consigo explicar racionalmente por que estou tomando essa decisão?
Não existem candidatos perfeitos, assim como não existem eleitores perfeitos.
Democracia não exige perfeição.
Exige responsabilidade.
Depois da eleição, vencedores e derrotados continuarão vivendo no mesmo país. Continuaremos enfrentando desafios comuns e entregaremos às próximas gerações as consequências das escolhas que fizermos agora.
Por isso, quando chegar o momento, talvez a pergunta final não seja apenas:
“Em quem vou votar?”
Pergunte também:
“Depois de tanto ruído, medo, indignação, propaganda e tentativa de influência, esta escolha continua verdadeiramente sendo minha?”
Porque podemos entregar nosso voto a um candidato.
O que não deveríamos entregar a ninguém é nossa capacidade de pensar.
QUEM ESTÁ ESCOLHENDO POR VOCÊ?
A resposta deveria ser simples:
Você — depois de informar-se, comparar, questionar e pensar por si mesmo.
Carlos Alberto Braga é colaborador do site – Imagem: Divulgação
A Bahia Fala
O portal que fala a sua língua.
Contato
Nosso e-mail

