Os ‘Causos do Jota’. O Programa Para Quem Não Gosta de FM, por Pacheco Maia Filho
Eram tempos de nenhum pudor politicamente correto. Eram os anos 1980. A Transamérica, rádio em que trabalhava, não tinha limites, tanto nas produções em rede nacional, quanto na emissora daqui de Salvador
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7/19/20262 min read


Eram tempos de nenhum pudor politicamente correto. Eram os anos 1980. A Transamérica, rádio em que trabalhava, não tinha limites tanto nas produções em rede nacional quanto na emissora daqui de Salvador.
Eu e Isaac produzíamos e apresentávamos o Programa Para Quem Não Gosta de FM. O nome oficial era New Rock. Mudamos porque a intenção era fazer algo diferente daquele modelo de locutor animado anunciando e tocando músicas.
O ano era 1989 e o programa estreou com um especial no dia do aniversário de Raul Seixas, em que a mãe dele contava as histórias do Maluco Beleza entre as músicas. “Para mim, música era coisa de boêmio, vagabundo. Não queria isso para um filho meu”, dizia ela.
O programa que ia ao ar de segunda à sexta das oito às 10 da noite não podia ter estreado melhor. Iniciava homenageando um anarquista que inspiraria os capítulos de uma breve, mas inesquecível história radiofônica que durou dois meses.
Acabaria com a morte de Raul em 21 de agosto, depois dos outros especiais que fizemos sobre ele ao longo daquela triste semana. O coordenador da rádio não ficava muito à vontade com a anarquia. Botou um “peru” para nos sabotar.
Eu e Isaac nos divertíamos com aquele trabalho. Nada melhor. Uma galera curtia também, porque, quando foi anunciado o fim do programa, fizeram protestos na frente da rádio.
Ainda teve um abaixo-assinado feito pelo artista Jayme Fygura, que ia colher assinaturas com as plateias dos shows de banda de rock que aconteciam na Concha Acústica.
Versátil, Fygura enveredava pelo rock na época. Chegou a montar uma banda. Já circulava pela cidade, trajado com suas incríveis indumentárias. Havia também os punks anarquistas do subúrbio: Kílson e outro que não consigo lembrar o nome.
Até hoje tenho guardado em algum lugar este abaixo-assinado. Foi o maior prêmio que recebi na minha carreira radiofônica. Isaac ficou com as cartas dos ouvintes.
O programa Para Quem Não Gosta de FM tinha quadros inesquecíveis, a exemplo do Passeio no Dial. Botávamos as outras emissoras no ar e ficávamos tirando sarro delas.
Às segundas-feiras, o povo que curtia heavy metal levava seus discos e deixávamos que tomasse conta do horário com a barulheira deles. Tinha também outro quadro inusitado.
Na era de ouro do rádio, nos anos 1940/50, o humor era um dos carros-chefe da programação, ao lado das radionovelas e programas de calouros. O Piadas do Manduca era famoso.
Lembrei de um amigo do Canela que era dono de infinito repertório de piadas: Pekinho. Falei com ele sobre a ideia da participação dele no programa. Ligaria para ele certo horário, quando entraria no ar e contaria uma de suas anedotas.
Naquele tempo não existia smartphone, telefonia móvel. Era o velho e o bom telefone fixo. Ele precisava aguardar a ligação em casa naquele horário.
Pekinho topou e nunca falhou durante todos os dias em que o programa foi ao ar. Assim nascia o ´Piadas do Pekinho´. Aliás, foi ele que motivou a criação deste texto.
José Pacheco Maia Filho (Jota Júnior) é jornalista, radialista e colaborador do site
Imagem: Criada por IA
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